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CLOVIS ROSSI
FINE ARTS
 
Londres fica mais colorida neste verão

A arte de Clóvis Júnior arde e encanta brasileiros apaixonados por sua terra natal.

Por Georgia Martins*

O suspiro alto e a alegre surpresa foram minhas primeiras reações ao ver o colorido dos quadros de Clóvis Júnior na Galeria 32 da Embaixada Brasileira em Londres. Artista plástico há 20 anos, o poeta das telas Clóvis Júnior nos recebe com a mesma beleza e simplicidade que vemos em seus quadros. Seguidor e expoente brasileiro da arte naïf, acostumou-se a fazer exposições internacionais, principalmente após ter recebido o primeiro prêmio no Concurso Nacional de Cartazes promovido pela ONU em 1993, tendo seu trabalho divulgado em mais de 150 países. Suas últimas exposições passaram por Portugal, Alemanha, Milão, Nova Iorque, Paris, entre outros. Em Londres, apresenta até o dia 26 de junho a exposição Magic Paintings, seguindo depois para a Embaixada do Brasil em Berlim.

A explosão de cores característica de seu trabalho retrata, como ele mesmo define, um Cordel colorido. Paraibano e morador de João Pessoa, tem muito a mostrar sobre nossa cultura nordestina.

A cultura naïf tem origem na França pelos pincéis de Russeau, que registra então as primeiras marcas de uma arte ingênua, primitiva, natural, como é definida. Pintar a fauna, o meio ambiente e o folclore, com incursões sociais no meio do caminho também são traços marcantes da pintura naïf.

Leia abaixo entrevista exclusiva concedida por Clóvis Júnior ao www.BrazilianArtists.net para o jornal Brazilian News.

BA: Há uma citação de Jorge Amado sobre a pintura naïf em que ele disse o seguinte: "Sou daqueles que acham que a única pintura brasileira que possui caráter realmente nacional e se expressa numa corrente de nossa cultura mestiça é a pintura naïf, ingênua, primitiva - cada um escolha a designação que lhe pareça melhor".

Depois do pai da palavra nordestina eu quero saber de você. A arte naïf não é uma arte de origem brasileira mas podemos dizer ser a mais brasileira das artes?

Clóvis: Eu considero a mais brasileira das artes por que a gente vê a nossa cultura nela. A pintura naïf representa muito bem os nossos povos, nossos costumes, nossas festas folcloricas, quer dizer, tem uma identidade e força muito grande por que representa diretamente os movimentos que acontecem no país e o pintor é um repórter clássico, ele reproduz aquilo que vê pras pessoas poderem ver tambem.

BA: Podemos dizer então que é uma arte popular com tendências folclóricas. Voce acredita que essa é uma característica da pintura naïf em geral ou pintar o folclore é uma contribuição essencialmente brasileira nesse estilo de arte?

Clóvis: O folclore é uma fonte de inspiração tamém para a pintura naïf, não que ele seja obrigado a pintar somente isso, a arte naïf é livre. Eu por exemplo prefiro pintar o lado bom da vida, a alegria, a harmonia, o bem estar do ser humano. De violência já basta o que a gente vê na televisão. Claro que o artista pode mostrar o que quiser mas eu prefiro pintar o lado bom da vida, acho que o espírito é esse.

BA: E a questão da crítica social percebida em seus quadros, como você a retrata?

Clóvis: Pintei uma vez um dragão caindo no Congresso em Brasilia e um político da minha cidade quando viu o quadro ficou chocado por que ele não entendeu a mensagem e nem eu quis dizer a ele o que era. A mensagem está no que você pensa, né? Um outra vez pintei um quadro do bando de Lampião chegando no Congresso com os políticos corruptos atrás.O quadro não era assim agressivo mas tinha também uma mensagem política que não é direta, ela é surrealista. Meu trabalho tem muito disso, esse surrealismo, essa coisa meio fantástica, de ilusão, do imaginário. Não estou diretamente ligado à pintura tradicional naïf de pessoas do interior, gosto de trabalhar com o surrealismo de quebrar as figuras também. Por exemplo, criei uma vez um Lampião montado em um cavalo marinho. Se eu tivesse feito um cavalo comum seria mais um pintado, mas eu fiz ele vir em uma outra forma, em uma outra roupagem. Na minha imaginação ele foi à Brasilia assim, com uma festa grande atrás dele.

BA:O historiador brasileiro Jose Pierre afirma que o artista naïf se mantém sempre como um "primitivo de épocas futuras". Voce concorda? Qual o futuro da pintura naïf brasileira?

Clóvis: O brasileiro ao longo do tempo foi tão colonizado, globalizado que a nossa auto-estima era muito pouca, só via o outro lado, nunca valorizava os artistas da terra. A pintura naïf também sofreu muito isso, essa rejeição por ser uma pintura simples que não seguia um padrão de qualidade acadêmica. Eu, por exemplo, no começo sofri muitas críticas por alguns artistas de outras escolas por ser um pintor primitivo mas mesmo assim eu segui em frente e hoje estou aqui, fazendo o meu trabalho, o resultado está aqui. Assim como em todas as outras tendências artísticas, sempre vai haver uma pessoa pra dar continuidade. A pintura naif não tem moda, passa tudo na frente dela e ela segue caminhando com sua característica particular. Não importa em que época estamos, ela é natural, tem seu lugar certo na arte.

BA:Os brasileiros que visitam sua exposição conseguem identificar todo um significado social retratado em seu quadros por que estes são aspectos de nossa cultura. E os europeus, como reagem ao seu trabalho?

Clóvis: Infelizmente o europeu na maioria das vezes tem mais olhos pra nossa pintura que os próprios brasileiros. É engracado que quando eles vêem meu trabalho, tem apenas uma noção do que é o Brasil, eles vêem que o Brasil é um pais que ainda está por ser descoberto, não sabem a potência que o país tem, da alegria de um povo que independente de crise está sempre com sorriso na boca, não precisa ser rico ou pobre pra ser alegre. Certa vez estava com uma exposição em Buenos Aires e uma pessoa me perguntou: 'Por que vocês só vivem sorrindo se ganham tão pouco?' Eu tomei um choque com aquela pergunta. Na época a Argentina estava bem e aí eu disse 'mas por que vocês ganham tão bem e são todos tão tristes?'

BA: Percebi que você tem umas xilogravuras expostas também. Tem aí uma influência de Cordel?

Clóvis: Esses quadros na verdade são cordéis coloridos, os traços da xilogravura estão todos aí, é puro cordel. A arte no cordel nasceu pela necessidade de se expressar, é outro movimento da pintura junto com a poesia. Eu faço a xilogravura também, que é assim um trabalho muito particular, é como se fosse uma mágica. Você com um papel, estilete, um lápis, um cartão e pronto, ja fez uma xilogravura, que é mágica pela sua simplicidade. O bom da xilogravura pro meu trabalho é que ele quebra o colorido.

BA: O tema da sua exposição é "Pinturas Mágicas". Mágicas por que?

Clóvis: Porque você pode criar a mágica em cima de cada quadro. Eu posso dizer que esse quadro é isso e você imagina de outra forma, ele dá essa possibilidade de você viajar, de também fazer parte dele. Aí que está a magia da pintura dos meus quadros, deixar as pessoas à vontade com eles.

 

A exposição acontece de 10 a 26 de junho de 2004 na Galeria 32, Embaixada do Brasil em Londres

* Geogia Martins é poeta e estudante do curso de jornalismo da PUC-SP. Atualmente vivendo em Londres, ela participa do movimento www.BrazilianArtists.net. E você? Junte-se a nós!

See also: London Will Be More Colourful This Summer

 

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