Negros
no Carnaval: Mito e Realidade
Adriano Ademale Itaúna
Músico
O
festival conhecido como carnaval é celebrado no mundo
inteiro; apresentando diferentes estilos e refletindo os aspectos
culturais do país onde ele acontece. Musica, dança,
artes visuais e toda a imaginação de um grupo
de pessoas que vivem sob bases similares, são agrupados
para criar o momento onde a população pode expressar
seus sentimentos.
O
maior carnaval da terra acontece no Brasil, em torno de 180
milhões de pessoas param com tudo que estão fazendo
para promover o que pode ser defindo como um exuberante teatro
ao ar livre. O Carnaval tem sido o cartão postal do Brasil
no mundo inteiro. Uma quantidade enorme de turistas visitam
o Brasil no período de Carnaval, sedentos por gozar toda
a felicidade, simpatia e tantas outras atrações
que acredita-se ser fácil de achar durante estes dias.
Entretanto,
mesmo sendo este um sonho maravilhoso e poderoso, a realidade
também apresenta-se de uma forma poderosa e chocante.
O carnaval brasileiro como ele existe no momento é uma
mentira e não representa a realidade de mais da metade
da população brasileira.
A idéia de que o Brasil é um país multicultural,
como um exemplo de unidade de raças, expalha-se pelos
quatro cantos do mundo. Porém, esta idéia esconde
a realidade das populações oprimidas do Brasil;
e entre os oprimidos, a grande maioria é formada por
negros e descendentes de escravos africanos. A situação
dos Afro-brasileiros no momento é no mínimo embaraçosa
tanto para os negros quanto para os brancos brasileiros, isto
para não mencionar a situação dos índios,
que praticamente foram exterminados.
Quando
fala-se do Brasil, é possível identificar a influência
Africana em muitos aspectos da sociedade; música, dança,
comida e língua; mas também é possível
identificar o deslocamento da cultura africana dentro desta
mesma sociedade.
A
situação dos negros durante o carnaval é
um assunto que não dá para ser discutido em algumas
palavras. Temos que voltar no tempo das sociedades tradicionais
da África, com suas cortes, reis e rainhas e músicos
e dançarinos. O que no Brazil, poderíamos comparar
com os Reis e Rainhas do Maracatu do Recife em Pernambuco.
Apesar
da terrível e miserável situação
econômica, financeira e política da maioria dos
países africanos, os povos africanos na África
estão representados pela sua própria sociedade.
( Eu não quero dizer que os países africanos já
atingiram uma situação de independência,
é sabido que os Estados Unidos e Europa controlam muitos
aspectos da vida economica destes países. Porém
este controle é executado atravéz dos próprios
lideres africanos que lutaram para conquistar o poder outrora
nas mãos dos colonizadores. No Brazil, as coisas ainda
são realizadas ‘para’ os negros, os negros
mesmos não suprem as suas próprias necessidades.)
Negros
no Brasil, só podem ser reis e rainhas durante o carnaval,
durante quatro, cinco ou dez dias do ano, depois disso eles
voltam as suas funções de criados, vivendo sem
os recursos necessários para se obter educação,
saúde ou mesmo comida. Minha questão é:
Criados de quem?
Claro
que não exitem reis e rainhas no Brasil, e eu não
quero dizer isto, eu quero falar da posição social,
da função, da possibilidade que uma pessoa negra,
que vive no Brasil, ascender tal posição ainda
controlada por outros. Tirando algumas exceções,
que no total não representam nem cinco por cento da população
negra brasileira, os Afro-brasileiros ainda precisam se auto
concientizar sobre suas origens, quem eles são e o que
eles representam.
Em
se tratando de carnaval, uma classe média opressora continua
no poder, lucrando uma enormidade ao empregar e pagar o mínimo
para os seus ‘serventes’, para qualquer pessoa oprimida
que está morrendo por um pedaço de pão.
Para que transformar estas pessoas em cidadãos com saúde
e concientes de suas próprias vidas?
Isto poderia ser um perigo para a economia do país, um
país com milhões de pessoas felizes dançando
alegremente, vamos deixar estas pessoas felizes por quatro dias
e miseráveis no resto do ano.
A
luta de qualquer povo oprimido, seja lá onde for, somente
poderá ser realizada pelos mesmos oprimidos. Não
é do interesse dos opressores serem legais, amáveis
e dividir o pão.
Afro-brasileiros,
independente do que isto significa, mulato, negro, mestiço,
têm que olhar para as suas próprias raizes, e através
da compreensão da sua cultura , se auto organizarem para
fazer parte de todos os níveis da sociedade, da mesma
maneira que qualquer outra pessoa o faz, independente de raça,
cor e sexo.
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