O
riso da máscara:
uma reflexão sobre a ratificação da segregação
social no Carnaval
por Joaquim Aguiar Duarte
Bacharel em Letras pela Universidade Mackenzie, São Paulo
Quando
fui convidado a escrever um texto sobre o Carnaval, ao mesmo
tempo que fiquei lisonjeado, tornei-me, de igual modo, céptico
e descrente naquilo que poderia colocar no papel, sobre aquela
que é considerada, pelos brasileiros, “a maior
festa popular do país”. Logo neste rótulo
já se advinha um problema, tanto de nomenclatura, quanto
em relação ao meu olhar sobre essa festa e, portanto,
posso estar contraindo uma série de protestos e de duras
críticas em relação a esse meu ponto de
vista. Devo, então e desde já, deixar claro que
o que virá a seguir é um ponto de vista particular,
de alguém que não é brasileiro mas que
conhece um pouco dessa cultura, a brasileira claro, já
que faz parte daquela que é, indubitavelmente, a maior
e mais completa forma de expressão de qualquer cultura:
a Língua.
Quero, também, deixar registrado que este não
é um ensaio de pretensões sociológicas,
de análises profundas sobre o comportamento da sociedade
brasileira sobre a dita festa. Tampouco, algo que possa ser
lido como verdade única, pois, acredito, que a verdade
seja um “espelho fragmentado” para usar um título
de Carlos Fuentes.
Mas deixemos de “enrolação” e vamos
ao que interessa ou seja, o tema do texto: Carnaval.
Originário do entrudo português, foi por eles trazido
no século XVII e remetia a uma introdução
ao período da Quaresma. Nesses festejos havia, acima
de tudo, um sentido de liberdade, marca até hoje ligada
a essa festa. Essa liberdade é traduzida em um sentido
de quebra de hierarquia o que leva a um nivelamento das diferentes
classes sociais, nivelamento esse que facilita o deboche e o
riso desvelando mágoas e ressentimentos próprios
das diferenças sociais. Vale lembrar que esse tipo de
manifestação popular, niveladora das diferentes
classes sociais, já acontecia em Roma, nas festividades
chamadas Saturnálias em que escravos, filósofos
e tribunos se misturavam nas festividades com a consequente
quebra de hierarquia. Do mesmo modo, o riso e o deboche, este
em relação às classes do topo da pirâmide
social, sempre fizeram parte da cultura popular. Na idade média,
os teatros populares debochavam das altas camadas hierárquicas
causando o riso nas platéias paralelamente ao aparecimento
de dois personagens importantes que até hoje fazem parte
das festas carnavalescas: o bufão e o bobo. Portanto,
o riso e o deboche sempre foram uma forma de se dizer a verdade
que atenuava os enfrentamentos mais agressivos e violentos.
Contendo o carnaval esses traços comuns aos quais acabamos
de fazer referência, seria uma espécie de purgação
ou catarsis através da qual, ao se aproximarem as diferenças,
se resolviam as divergências sociais.
Assim e levando em consideração o que foi dito
acima, coloca-se a questão que é o tema deste
texto: como se comporta e se mostra o Carnaval Brasileiro no
que diz respeito à sua principal essência, o nivelamento
das classes sociais e a quebra das hierarquias que levariam
a uma melhor harmonização social?
Tomemos como exemplo o considerado maior e melhor Carnaval do
Brasil e do Mundo, o Carnaval do Rio de Janeiro.
É verdade que as Escolas de Samba, principais protagonistas
do carnaval carioca, ficam situadas nas comunidades mais carentes
da cidades. É também verdade que os “operários”
dessas Escolas pertencem a essas comunidades. No entanto, não
são eles as principais atrações do desfile.
Esse papel fica reservado para uma elite de modelos, atrizes
da Rede Globo principalmente, e alguns outros membros do topo
da pirâmide social brasileira.
Senão, observe-se, sem grandes detalhamentos, a estrutura
do desfile de uma escola de samba: comissão de frente,
mestre-sala e porta-bandeira, a ala das baianas e outras alas,
desfilam a pé, antes ou após os carros alegóricos,
estes representações visuais do samba-enredo apresentado
pela escola. Os carros, ricamente decorados, deslocam-se sobre
rodas impulsionados pela força de uns quantos homens
e sobre esses carros, ou seja, nas plataformas dessas construções
alegóricas, observam-se os destaques do tema do carro
e, assim, da própria escola. Porquanto os que desfilam
a pé, primeiramente citados, são, na sua maioria
negros e, logo, pertencentes às classes mais desfavorecidas
economicamente, os outros, chamados de destaques, são,
majoritariamente, brancos e pertencentes às camadas mais
altas da sociedade brasileira.
É,
portanto, visível a comparação que pode
ser feita entre a pirâmide social brasileira e a estrutura
do desfile de uma escola de samba do Rio de Janeiro. Na base
as camadas mais desfavorecidas da população, principalmente
negros moradores das comunidades em que se situam as escolas,
e, no topo da pirâmide ou do carro alegórico, como
destaque, os representantes de uma elite branca e favorecida
economicamente. Note-se, também, como comparativo, que
os primeiros são em número muito maior do que
os segundos.
Da mesma forma, aqueles que assistem ao desfile são separados
pela posição econômico-social. As grandes
empresas, principalmente as grandes marcas de cerveja, possuem
camarotes com as melhores posições de observação
do desfile. Nas próprias arquibancadas, os melhores lugares
são disputados e ocupados por uma classe econômica
mais favorecida. Percebe-se, portanto, uma festa para ser vista,
ou para ser melhor vista, por aqueles que podem pagar um preço
não acessível a todos ou, então, para os
convidados “ilustres” das referidas empresas.
Logo, pode começar a concluir-se que a intitulada festa
“popular” é direcionada para um determinado
escalão econômico-social, tanto no que diz respeito
aos seus protagonistas quanto àqueles que a ela assistem.
Portanto, a quebra de hierarquia, o nivelamento social e a troca
das posições sociais, parece ter-se esvaído
nessa forma de festejo. Do mesmo modo o termo “popular”
a ela atribuído não parece ter significação
coerente com a observação do que acontece de fato.
Assim, remete mais ao envolvimento do que ao proveito que se
pode tirar desse festejo. Isso, para não fazermos referência
à competitividade existente, incompatível com
o sentido de liberdade próprio do carnaval.
Pode argumentar-se que ainda existem locais, por este imenso
Brasil, em que as festas de carnaval são feitas nas ruas,
com a participação de todos. Contudo, não
é esse o carnaval apregoado pela mídia, tampouco
pelos próprios brasileiros. A “grande festa popular”
é essa dos desfiles das escolas de samba e essa é,
simplesmente, reprodutora da segregação econômica
e, acima de tudo, social existente nesta sociedade.
Não existe, dessa forma, uma integração,
uma mistura social que produza a tal espécie de catarsis
que poderia atenuar os conflitos sociais. O distanciamento das
classes sociais reproduzida nessa estrutura só reforça
o preconceito e a segregação tão característicos
e enraizados na sociedade brasileira. O riso estampa-se apenas
e somente na máscara. Por detrás, os olhos continuam
chorando.
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