“4 DIAS DE CARNAVAL, 361 DIAS DE...”
Por Gobira
O carnaval brasileiro é celebrado pela mídia brasileira
e estrangeira como o maior espetáculo da terra.. Para
elogiar o nosso carnaval, centenas de páginas não
dariam conta de tamanha beleza.
O objetivo da exibição “4 dias de carnaval,
361 dias de...” é um pouco diferente. A proposta
é olhar para as fotografias de forma crítica,
e pensar no relacionamento da sociedade brasileira com o carnaval.
Muitos brasileiros, de uma forma geral, afirmam que o carnaval
é um evento democrático, destituído de
preconceito, um evento que pelo menos temporariamente reflete
as aspirações de igualdade das classes pobres
e das minorias brasileiras. Podemos acreditar nessas afirmações?
Artistas e intelectuais brasileiros, e especificamente artistas
e intelectuais com um passado ligado aos pobres, às minorias
e aos grupos menos favorecidos, têm sistematicamente traído
a história de luta por um país justo e igualitário,
ajudando a manter o privilégio e o poder das classes
mais favorecidas.
Uma arte que leva em conta o mundo em que vivemos, não
pode se ausentar da necessidade de falar dos problemas associados
a esse mundo.
A luta de muitos professores e intelectuais para combater o
analfabetismo no Brasil tem sido enorme, mas esta tarefa ainda
está longe de ser concluída. Além do que,
somente ler e escrever não é o suficiente. É
necessário entender aquilo que se lê, e para que
isto ocorra, esses cidadãos têm que questionar
aquilo que lêem, aquilo que lhes é mostrado, que
lhes é contado.
A sociedade brasileira sofre as conseqüências do
analfabetismo visual, e esse tipo de analfabetismo está
presente em todas as classes sociais, em todas as regiões
do país, entre universitários e entre aqueles
que nunca foram à escola. Imagens, assim como palavras,
passam uma ideologia, uma maneira de pensar. A sociedade brasileira
ainda é uma sociedade autoritária e a maneira
como estas imagens são passadas são autoritárias,
muitas vezes expondo preconceitos contra negros, índios,
mulheres, homossexuais e etc....
O Carnaval é uma manifestação da diversidade
cultural brasileira, entretanto o carnaval tem servido mais
para esconder do que para combater preconceitos raciais contra
negros, índios, homossexuais e mulheres. Durante os desfiles
de carnaval, fotógrafos e a televisão brasileira
e de outros países direcionam suas câmeras para
as mulheres que simbolizam a beleza da mulher brasileira. Mas
será que estas mulheres, muitas vezes siliconadas em
clínicas de beleza, realmente representam a maioria das
mulheres brasileiras? Quem já participou ou assistiu
um desfile de carnaval sabe que estas mulheres ‘bonitas’
são apenas uma minoria, é necessário que
haja pluralidade, que as imagens não virem uma ditadura
estética, reforçando uma visão machista
da ‘mulher brasileira bonita e gostosa’.
E em relação aos negros? Quatro dias de carnaval
não são suficientes para apagar o preconceito
que os negros sofrem diariamente. Os negros na sociedade brasileira
não tem as mesmas oportunidades de trabalho e educação
que os brancos, ou os mais brancos. Nas escolas de samba isto
fica claro na maneira como as mesmas são divididas, aos
negros são destinadas posições entre os
músicos percussionistas, as melhores fantasias e os lugares
de destaque são reservados aos mais brancos e celebridades
locais ou nacionais que podem pagar.
O que fica evidente é que o carnaval esconde principalmente
o preconceito social a que muitos brasileiros estão sujeitos.
Nós vivemos o que pode ser caracterizado como uma ditadura
social que divide o país entre os que têm e aqueles
que não têm.
A exibição on-line “4 dias de carnaval,
361 dias de...” é um convite do a todos os brasileiros,
ingleses e povos de outros países que gostam da cultura
e do povo brasileiro para discutir a cultura e a sociedade de
um Brasil de muitas facetas, de muitas contradições
e com muito trabalho ainda por ser feito.
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