PRECISAMOS DESCOBRIR O BRASIL: OS ÍNDIOS BRASILEIROS DO SÉCULO XXI
Prof. MsC. e Doutorando Giovani José da Silva
Universidade Federal de Goiás (UFG) – Goiânia, Brasil

Pouco se fala deles, mas estão aí, crescendo demograficamente nos últimos cinqüenta anos, espantando o fantasma da extinção. Os índios brasileiros, nome genérico que se dá a um conjunto de mais de 200 povos diferentes, chegaram ao século XXI mostrando que o Brasil, ao contrário do que muitos ainda pensam, é um país pluriétnico e de rica diversidade sociocultural. Além do Português e das línguas faladas pelos imigrantes árabes, italianos, japoneses e outros, são faladas mais de 170 línguas indígenas no Brasil de hoje. E por que tantos teimam em ver os índios como pessoas do passado ou que estão na iminência da desaparição?

Se perguntarmos a jovens, crianças, adultos e idosos de ambos os sexos das diversas regiões do país sobre os índios no Brasil as respostas serão invariavelmente as mesmas. Para a maioria da população não-indígena as imagens sobre os índios estão calcadas nos manuais escolares que ensinaram que esses indivíduos dormiam em redes, adoravam o sol e a lua, pescavam, caçavam, ou seja, todos, indistintamente, faziam as mesmas coisas (com o detalhe de que os verbos agregados a eles sempre estão no passado). Um índio genérico, sem rosto e sem identidade...

Quando se pergunta quem é índio as respostas também não variam muito: são aqueles que andam nus, ou de tangas, que moram em ocas, usam arco e flecha, cocares e colares, com muitas penas... Não é esse o índio retratado nos nossos carnavais, por exemplo? Todos sabem, na ponta da língua, que os índios formam tribos, possuem caciques (ou morubixabas), pajés, etc. E que quando fogem a esses padrões, ou seja, aos estereótipos que nós construímos a respeito deles, já deixaram de ser índios, estão aculturados, destribalizados, etc. Mas será que ser índio no Brasil hoje é só isso, mesmo?

As mais de duzentas etnias (e não tribos) que formam o conjunto da população indígena brasileira neste início do século XXI ainda precisam ser descobertas pela população não-indígena. Precisamos descobrir o Brasil, como diria o poeta! Essa rica sociodiversidade cultural, manifestada na música, nas artes visuais, na dança, nas tradições e em tantas outras manifestações culturais ainda está por ser retirada do esquecimento e apresentada como um patrimônio brasileiro e da humanidade. Muito pouco se fala dos índios na grande mídia e geralmente quando isso ocorre as notícias se referem a problemas com terras, suicídios, mortes por desnutrição, alcoolismo, etc.

Os povos indígenas brasileiros apresentam variados graus de contato com a sociedade não-indígena e dependendo da região eles são maioria e não minoria. Muitos enfrentam sérios problemas como os apontados acima, outros ainda aguardam a regularização das terras, alguns não são sequer reconhecidos pelo Estado brasileiro. Esta é uma situação complexa, heterogênea e fragmentada. O que sabemos realmente sobre esses nossos contemporâneos? Estamos preocupados com a sorte deles? E por que, afinal, deveríamos nos preocupar com pessoas que parecem estar tão distantes da nossa realidade mais imediata?

Cada um desses mais de 200 povos desenvolveu, ao longo de sua trajetória história, culturas diferentes, ou seja, respostas aos problemas da vida, etiquetas, comportamentos, maneiras de ver o mundo. Desaparecendo os índios, desaparecem com eles uma forma diferenciada de se entender o mundo em que vivemos e desaparece também um pouco da riqueza da própria humanidade. Conhecê-los melhor nos leva a questionar os nossos próprios valores, a nossa forma de enxergar as coisas e isso, em tempos de globalização e de homogeneização, é mais do que saudável!

Lamentavelmente, quando vemos os índios representados, seja nas escolas, na grande mídia ou em outros espaços, o que se mostra, na maioria das vezes, é uma imagem estereotipada, caricata e deformada dessas culturas. Geralmente, nós nos lembramos deles no dia 19 de abril, quando obrigamos as crianças a se “fantasiarem” de índios, colocando em suas cabeças mais do que penas de galinha e cocares de cartolina: colocamos também em suas cabeças preconceitos de toda ordem. E ensinamos a todos, desde pequenos, que os índios fazem parte do nosso passado, que já desapareceram e que deixaram para a cultura brasileira apenas algumas contribuições, tais como a rede de dormir, o hábito diário de tomar banho e algumas palavras em Tupi.

O carnaval é outra forma de rememorarmos a existência dos nossos “silvícolas”. Durante as festas é comum a evocação das imagens do índio guerreiro, de penas na cabeça, seminu, ou, ainda, de índias sensuais e convidativas ao prazer. Os conflitos e as tensões provocados por séculos de contato e de incompreensão da cultura não-indígena com as culturas indígenas são varridos para debaixo do tapete da História como se vivêssemos numa eterna democracia racial. Não vimos isso no carnaval carioca deste ano, por exemplo? A grande vencedora enalteceu a presença jesuíta no sul do Brasil sem fazer nenhuma menção à destruição das culturas e tradições indígenas naquela região do país.

Os índios brasileiros, Xavante, Karajá, Kadiwéu, Atikum, Baniwa, Kaingang, dentre tantos outros povos, são nossos contemporâneos e estão, portanto, no século XXI. Não vivem mais como seus antepassados nos séculos XVI, XVII, XVIII ou XIX. Assim como nós não vivemos mais como nossos antepassados... Por que exigimos que se mantenham “congelados” no tempo, que não tenham direito às mudanças? Por que exigimos que sejam “legítimos”, “autênticos” depois que quase foram dizimados, destruídos? Por que não aprendemos a admirar a beleza que produzem com seu modo de vida, suas crenças, rituais, mitos?

Ainda que tenhamos dificuldades de compreender isso é preciso repensar a forma como eles são representados nos meios de comunicação, nos livros, e avaliar sua presença na história do nosso país. Isso não significa, também, transformá-los em pobres vítimas da ganância e da cobiça dos não-índios. Significa reconhecê-los como sujeitos históricos, que não reagiram passivamente à presença do Outro em seus territórios, em suas vidas. Os povos indígenas brasileiros articularam estratégias de sobrevivência, lutaram, recuaram, enfim, sobreviveram.
Estabelecer um canal de diálogo entre culturas tão distintas e radicalmente tão próximas parecer ser o desafio das novas gerações de indígenas e não-indígenas. Perceber as assimetrias do contato das minorias com a sociedade envolvente parece ser o primeiro passo para mudar o estado de coisas. Conhecer e respeitar para compreender um pouco melhor o que são culturas baseadas na oralidade, na repetição, na experiência, no silêncio (que pode ser um gesto poderoso!) são tarefas urgentes nesse início de século. A arte pode nos ajudar nessa aproximação. E no espelho índio talvez vejamos refletida a nossa própria imagem...

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