O Carnaval Como um Gueto do Comportamento Homossexual:
Rogerio Correa, Bacharel em Estudos Afro-Brasileiros e Portugueses do Kings College of London, homossexual e osteopata

Por detrás de toda a sua aparência de liberdade anárquica, o carnaval pode ser visto também como um “gueto temporal”, no qual, somente naqueles dias, em lugares demarcados, a quebra de alguns tabus é permitida e exposta à luz do sol.

Esse papel do carnaval como “gueto temporal” é necessário pelo fato de que na sociedade brasileira a ordem social não é desafiada de frente, mas “enganada” por detrás de uma fachada de normalidade. Os tabus são respeitados oficialmente e a sua quebra é tolerada normalmente somente se feita de forma escondida, ou em ocasiões demarcadas, sendo a principal o carnaval.

A nossa é uma sociedade onde os conflitos não são explícitos, onde os confrontos sociais são desencorajados e diluídos.
Não há a divisão clara dos campos de opostos, os “nós” e os “eles”, e alguns destes campos, especialmente no caso das minorias, ainda não se organizam politicamente para conquistarem os seus direitos.

Em geral, no Brasil, os movimentos de minorias são muito pouco organizados. As minorias assim não encontram um reconhecimento de sua opressão nem uma expressão política que lhes possa dar poder. Não há nem mesmo uma conscientização generalizada de que a sua opressão seja um fato político e que por uma organização política possa ser sobrepujada. Assim, no Brasil, o movimento das minorias, tal como o movimento dos gays, das mulheres, dos negros, etc. (com raras exceções, tais como o Movimento Gay da Bahia) não são muito organizados politicamente, nem mobilizam grandes faixas da população.

O carnaval permite uma a expressão de comportamentos reprimidos e das tensões sociais das minorias brasileiras, que são pouco expressadas na normalidade aparente do resto do ano. No período carnavalesco, comportamentos reprimidos e conflitos sociais podem vir a tona, porém de forma lúdica e caricata. Essa limitação temporal e estética funciona simultaneamente como uma parede de proteção e uma válvula de escape ao Status Quo e às suas tensões. A ordem dos “dias sérios” do resto do ano é assim preservada mais facilmente.

Estes conflitos abrangem questões sociais tais como classe, raça, gênero e sexualidade. No carnaval, por exemplo, é frequente que os papéis sociais de gênero sejam subvertidos temporariamente. É uma tradição no carnaval brasileiro que tanto homens heterossexuais quanto homossexuais se vistam de mulher e se comportem de maneira efeminada. Eles fogem assim, por alguns momentos, da opressão e das limitações do comportamento masculino que lhes é imposto no resto do ano. A sua personificação do feminino é caricata e demonstra que o comportamento de gênero (tanto masculino quanto feminino) é um socialmente construído. Todavia esta manifestação também demonstra que esta construção social é imposta e que sua transgressão tem de se dar de forma controlada dentro dos limites do carnaval.

É verdade que a minoria homossexual no Brasil viu nos últimos anos uma onda de liberação e maior visibilidade. O carnaval das grandes cidades se tornou uma festa onde o visual e o comportamento gay são onipresentes, no carnaval de rua, nos grandes desfiles das escolas de samba, na Banda de Ipanema, nos bailes de carnaval, etc. Até mesmo a Passeata Gay de São Paulo pode ser vista como parte deste fenômeno. Ela se tornou uma manifestação em clima carnavalesco que é hoje em dia uma das maiores passeatas gays do mundo, tendo contado com centenas de milhares de participantes (2 milhões e quinhentos mil em 2005), incluindo o prefeito da maior cidade do Brasil).

Todavia, esta “liberação” da homossexualidade no Brasil, especialmente a “gayzação” do carnaval nos últimos anos se deu mais a nível de uma maior visibilidade e franqueza quanto à existência da atração sexual entre pessoas do mesmo sexo.
Ela não significa necessariamente uma mudança e uma aceitação dos relacionamentos homossexuais e do seu reconhecimento perante à sociedade, tal como nos direitos de casamento, herança, adoção, etc. O Brasil é também ainda um dos países onde há maior índice de violência contra homossexuais, o que reflete uma atitude repressiva da sociedade quanto a essa faixa da população.

Ainda que a visibilidade dos homossexuais seja cada vez maior, sobretudo no carnaval, a sua opressão ainda é muito grande. Talvez a expressão cada vez maior do comportamento homossexual dentro dos limites temporais e estéticos do carnaval seja, por um lado, um reflexo da maior expressão social e visibilidade dos homossexuais na sociedade. Mas por outro lado, talvez ela seja mais um sintoma da sua opressão ainda presente do que de uma aceitação social real.

VOLTAR PARA O MENU