Da
periferia de São Paulo para o mundo, Toninho Crespo
manda sua mensagem, falando sobre música, rap paulista
e preconceito no Brasil.
Artigo
publicado pelo www.BrazilianArtists.net no jornal
londrino Brazilian News em 21/10/2004 |
Por
Maíra Cesarino |
Reggae,
samba, bossa nova, samba-rock, rap e outros ritmos
fazem o estilo de Toninho Crespo. Esse artista brasileiro,
que usa a música como expressão da alma,
como instrumento de luta pelos direitos humanos e
contra a violência, esteve em Londres e Paris
para lançar o seu CD solo "Um toque de
amor".
Toninho
Crespo é músico, compositor e marca
presença como um artista-ativista. É
considerado um dos pioneiros do reggae brasileiro,
divulgando, por meio de suas músicas, as mensagens
e raízes desse movimento. Com sua banda Jualê
conquistou um espaco definitivo na história
do reggae verde e amarelo.
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Criado e ainda morando na periferia de São Paulo,
no bairro da Penha, Toninho foi educado pela mãe,
empregada doméstica, na escola e, principalmente,
na rua, onde aprendeu a tocar berimbau, violão
e a fazer samba. Suas primeiras influências da
música internacional negra foram James Brown
e Jimmy Hendrix. Na juventude, freqüentava bailes
de “Black Music”. Um pouco mais tarde, veio
a influência de Bob Marley, ainda vivo na época.
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Para o músico,
o mundo tem que conhecer o rap brasileiro da periferia
de
São Paulo. "Hoje, o rap lá é
vanguarda. É um movimento que incita os
jovens a lutarem pelos seus direitos e contra a violência
policial".
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O
Reggae deixou sua marca na música e estilo de Toninho,
que adotou o visual dreadlock no começo dos anos 80.
No panorama nacional, ele sempre se interessou por Luiz Gonzaga,
Chico Buarque, Geraldo Vandré, poetas repentistas dentre
outros músicos que procuravam expressar alguma forma
de protesto em suas músicas. Sempre buscando novas
experiências, Toninho vem se ligando cada vez mais aos
rappers. Hoje, além do trabalho solo e com a banda
de reggae Jualê, trabalha com os Racionais MC's. É
um dos guitarristas que toca com o grupo. O principal trabalho
dessa parceria foi no lançamento do álbum “Sobrevivendo
no Inferno”. Por falar em Racionais, Toninho Crespo
faz questão de deixar claro o seu respeito pelo Mano
Brown. Para Toninho, Brown é o grande poeta e letrista
da música brasileira atual. Outros nomes citados por
ele são Edy Rock, Dexter, Helião, Afro-X, Rappin
Hood e Gog.
Toninho
Crespo admira o fato de os Racionais usarem a liguagem
dos jovens da periferia de São Paulo que são
massacrados pela polícia. “Eu moro na
periferia e vou continuar morando. A nossa linguagem
é essa 'nós na fita ladrão. firmeza
total.' A liguagem do dia-a-dia paulista está
na música, nas letras dos raps”, diz
explicando que foi exatamente isso que grande nomes
fizeram, como Bob Marley.
Mas, ele denuncia: "E foi isso, que todos os
músicos do Brasil, com todo o respeito que
tenho por eles, não fizeram. Eles não
deram voz para o povo. O rap de São Paulo dá
voz para o povo. A junventude massacrada da periferia
pode agora enfrentar a polícia com o rap. ‘Não
gosto de polícia, não confio em polícia,
raça do caralho’. Hoje, já podemos
falar, ou seja, cantar para eles ‘um, dois,
três, neguinho num opala, pode vim gambé,
paga pau, na moral, eu tô sem pó, eu
tô sem fumo, eu tô sem nada, eu tenho
a minha regra’. Entendeu?”.
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Photo
by Israel Antunes
O
artista e ativista Toninho Crespo
é considerado um dos pioneiros do reggae brasileiro.
Com sua banda Jualê conquistou um espaco
definitivo na historia
do reggae verde e amarelo.
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Para
o músico, o mundo tem que conhecer o rap brasileiro
da periferia de São Paulo. “Hoje, o rap lá
é vanguarda. É um movimento que incita os jovens
a lutarem pelos seus direitos e contra a violência policial”,
diz ele a respeito desse grande fenômeno popular. A
forte identificação com o rap faz com Toninho
esteja sempre engajado nesse movimento. Ele desenvolve um
trabalho social com jovens da periferia e de favelas de São
Paulo, ensinando música e capoeira, incentivando e
dando suporte a pequenas produções.
Preconceito
mascarado
Comparando
a situação do negro no Brasil e no exterior,
Toninho lamenta o atraso que o nosso país ainda vive
em relação ao merecido reconhecimento que ainda
não foi dado aos negros. “No Brasil, nós
– os negros - ainda não podemos ser guitarristas.
Temos que tocar só pandeiro. Compreende? Ainda não
existe essa mentalidade que há aqui. Na Europa, as
oportunidades para os artistas são mais reais e para
todos”, conta. Ele acredita que no Brasil delimitações
geográficas e raciais impedem o destaque de alguns
artistas. “Eu e outro guitarristas negros ainda não
conseguimos nossos espaços. Por exemplo, o Hélio
Delmiro. Para mim, ele é o maior guitarrista do planeta.
Mesmo assim, não consegue nada na mídia”,
alerta para o preconceito.
Insatisfeito com essa diferença de tratamento, Toninho
aproveita a oportunidade para reclamar: "No Brasil, as
pessoas permanecem escondidas, paradas, mofando. Eu estou
sendo um dos primeiros a vir para fora do país sem
utilizar um discurso oficial. Não vou me prender a
um comportamenteo de me encantar com a Europa". Em relação
a polêmica capa de seu último disco, "Um
toque de amor", Toninho deixa claro que não é
uma apologia ao uso da maconha, trata-se do resultado de uma
resistência contra a polícia.
“É isso que eles estão procurando? Está
aqui, sob forma de música. Eu visto essa camisa”,
diz Toninho exibindo a sua imagem em meio a várias
folhas dessa erva. Ele reclama contra o preconceito sofrido
pelos negros que moram na periferia de São Paulo. “Já
fui parado várias vezes pela polícia. Eles me
param as três da madrugada, eu e mais quarto rappers.
O que tem no nosso carro? Guitarra, pick up, discos e outros
instrumentos.Nós somos músicos!”, conta
o cantor indagando a necessidade de ficar com uma arma apontada
para sua cabeça durante quarenta minutos. Toninho lamenta
a desigualdade de tratamento que a polícia tem em relação
a jovens de classe média ou alta e pobres que moram
em favelas ou periferias. “Se eles querem ver maconha?
Estou aqui, entre um monte de pé de maconha na foto
da capa do meu CD”, provoca e ressalta: “Antes
de falar qualquer coisa, escute as músicas, o nome
do disco é ‘Um toque de amor’.”
| Fire
jererê
(letra e musica Toninho Crespo)
Fire
Jererê
Só não posso precisar
A hora nem o dia
Mas um certo alguém iluminado
Armado de poesia
Vai se fazer ouvir
Embriagado de rebeldia
Vai ensinar a reagir
Vai se fazer ouvir
Com o fogo da razão
Vai queimar toda essa
Imensidão
Avenidas, carro, prédio, viaduto
A sociedade vai toda pro chão
A história da Babilônia
Vai se repetir
Meu irmão
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Com relação a capa de
seu último disco, "Um toque de amor",
ele deixa claro que não se trata
de uma apologia ao uso da maconha,
mas de um movimento de paz contra a
violência policial a que foi tantas
vezes injustamente submetido.
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Toninho
Crespo é um admirador dos negros e da cultura negra
brasileira. Para ele, o negro é o inventor das nossas
artes. “O Negro criou a nossa cultura e ainda não
reclamou o poder até agora”, diz o músico
lembrando que a maiora das manifestações artísticas
brasileiras reconhecidas internacionalmente vem dos negros,
como o samba e a capoeira. E enquanto isso no Brasil, “o
negro só leva porrada”, lembra. Mas, ele acrescenta
que o negro não precisa do poder. “O negro é
o poder de ser”, diz, mencionando a generosidade do
negro que não criou ódio contra os brancos.
Além da negritute da pele, Toninho explica que há
um outro conceito. A identidade “black”, em que
a tonalidade da pele não importa. “Todos podem
ser negros, se compratilham do contexto negro”. Ele
explica que na periferia, o racismo possui outros códigos,
onde o que importa é a atitude das pessoas. “Há
pessoas que são negras de pele mas não têm
atitude, há outras que são brancas, mas têm
atitude negra”.
Um
alerta aos brasileiros
A
primeira vinda do músico a Londres foi em 1989. O que
mais lhe chamou a atenção naquela época
foi o carnaval de Notting Hill. Desde então, Toninho
já veio e voltou para o Brasil cinco vezes. Todas as
vezes que ele retorna ao nosso país, leva um pouco
de novidades que viu na Europa. E, todas as vezes que vem
para cá, procura trazer mais sobre a cultura brasileira.
Em uma dessas voltas ao Brasil, Toninho gravou uma versão
dub – um remix de uma música de reggae com efeitos
psicodélicos, muito usado pelos DJs da Jamaica. Naquela
época, isso era novidade para o Brasil. Mas, o artista
reclama a falta de reconhecimento do seu pioneirismo. O objetivo
do artista fora do país é mostrar um Brasil
o que, de acordo com ele, ainda é desconhecido. “Quero
trazer um pouco do que ainda não chegou aqui. O meu
Brasil da periferia de São Paulo, o Brasil contemporâneo,
um Brasil que não gosta de mulher pelada, um Brasil
com letras de música que visam a conscientização",
declara.
| Segundo
Toninho Crespo, para que esse Brasil “desconhecido”
seja apresentado ao resto do mundo, é preciso
que a comunidade brasileira que vive no exterior comece
a divulgar esse outro lado do país. Para ele,
em muitas ocasiões, o Brasil ainda é visto
como um paraíso – falsa idéia mostrada
durante anos pelo governo militar. “Mulheres quases
nuas, um cara tocando um samba, festa, futebol, não
existe racismo. Espera aí! Nós não
podemos ficar em silêncio”, chama atenção.
Outro objetivo do artista fora do país é
lutar pelo seu reconhecimento. “Não quero
ser um sul-americao considerado inferior, quero ser
um cidadão do mundo. Quero conhecer a cultura
deles e quero que eles conheçam a minha”.
Para o músico, o Brasil é um país
fantástico com uma população carismática.
“Nós conseguimos fazer com as pessoas gostem
da gente aqui
na Europa”diz. |
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Photo
by Israel Antunes
Comparando a situação
do negro no Brasil e no exterior, Toninho lamenta
o atraso do nosso país: "No Brasil, devido
ao racismo, nós - os negros
- ainda não podemos ser guitarristas. Temos
que tocar só pandeiro. De
outra forma não tem espaço na midia".
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Mas,
ele alerta: “Lá dentro do Brasil alguma coisa não
está legal”, intimando a população
a se sentir responsável pelo nosso país e cobrando
atitudes individuais. Entretanto,
podemos perceber que alguma coisa está acontecendo
com a imagem do Brasil. Há um sentimento de nacionalismo
crescendo entre os brasilieros; não podemos negar que
o nosso país está “na moda”. Toninho
Crespo se qualifica como umnacionalista. “Considero
todos os meus irmãos brasileiros. Não assimilo
a diferença que a elite quer me empurrar. Não
consigo esquecer a violência policial de São
Paulo com os negros e mestiços”.
O músico fica contente ao ver nossa bandeira espalhada
pelo mundo e ao perceber que os brasileiros têm orgulho
de vestir a nossa camisa. Mas ele ainda tem um pouco de receio
em acreditar: “Só espero que isso não
seja um nacionalismo barato. Espero que seja um nacionalismo
real”. Toninho sugere que a comunidade brasileira do
exterior deveria aproveitar essa onda de nacionalismo para
falar também sobre os nosso problemas.
“Vamos falar a verdade. A polícia trata as pessoas
de maneira diferente dependendo do nível social, as
oportunidades são diferentes”. O artista acredita
que cada um pode encontrar a sua maneira de fazer isso. Para
ele e para os músicos da periferia de São Paulo,
a mensagem vai através das músicas. Toninho
Crespo viveu na pele dessa desigualdade de tratamento e oportunidades
denunciada por ele. Dois dias após chegar de uma de
suas viagens a Europa, o músico, na companhia de um
grupo de rap paulista, foi parado e revistado pela polícia.
“Foi uma voracidade. Eles foram muito violentos, eles
deveriam ir para a guerra. Eles tem o direito de te pedirem
os documentos, mas não precisam ser violentos com você”
lamenta.
Contra
a violência, um toque de amor
Em meio a tanta revolta
contra a violência e a desigualdade do país,
Toninho encontrou paz e tempo para preparar seu CD “Um
toque de amor”. “Eu tive que mudar um pouco a
minha linha para fazer esse disco. O mundo não é
só revolta. Não podemos esquecer que temos que
falar de amor e das coisas boas da vida”, conta o artista
descrevendo seu álbum como um trabalho romântico,
com vários “reggae lovers” e apenas algumas
faixas falando sobre a questão social - o que diferencia
dos discos anteriores que traziam a questão social
de uma maneira clara e direta.
Toninho
confessa que a mudança de estilo pode representar um
certo amadurecimento na sua carreira. Ele descreve “Um
toque de amor” como um disco de reggae romântico
dedicado às mulheres. Paralelamante à música,
Toninho trabalha com poesia. O artista gosta de expressar
seus sentimentos através de poesias engajadas. Além
disso, Toninho coloca música na poesia de amigos, como
o poeta paraibano falecido a pouco tempo, Arnaldo Xavier,
autor da letra de “Se você não fosse você”
do CD “Um toque de amor”.
“Um
toque de amor” é o trabalho de Toninho
Crespo e foi produzido pelo produtor de renome internacional
Cuca e gravado pela MAP. Com esse CD, o artista conseguiu
avançar mais um patamar na música brasileira.
O disco foi lançado em Londres e ainda está
para chegar no Brasil. Toninho enxerga esse caminho,
de lançar um disco primeiramente no exterior
e depois levá-lo para o Brasil, como uma alternativa
contra a dificuldade de reconhecimento e interesse
das gravadoras brasileiras.
Em 2004, além de ter se apresentado três
vezes em Londres, com o grande percussionista Luis
Carlos de Paula, Anderson de Paula e Rik Turner, Toninho
Crespo fez shows na França. Ele tocou em Paris
na festa do importante jornal de esquerda l'Humanite.
Com certeza nosso artista marcou presença e
representou muito bem o Brasil na Europa. E, como
ele mesmo disse: “Todo mundo balançou
a consciência. E isso para mim é tudo!”.
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Toninho
Crespo se apresentou em Londres em Setembro
no Purple Turtle
tendo na percussão o grande mestre Luis
Carlos de Paula, tambem membro
da banda Jualê.
O
evento foi produzido por
Andy
Cornwell e Meire Lewis |
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Maiores
informacoes geocities.yahoo.com.br/bandajuale
www.mapmusic.net
(onde o cd "Toque de Amor" pode ser comprado on
line ao preco de £10)
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