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MV BILL, O MENSAGEIRO DA VERDADE
MV BILL NO REINO UNIDO

Produzido pela equipe www.BrazilianArtists.net

A americanização não trouxe somente coisas ruins para o Brasil, trouxe também o rock, o jazz, o blues, o funk e o soul de James Brown, que nos anos setenta, veio ganhar bailes e fazer os negros da favela dançar em plena ditadura. Era um estilo de música americana pelo qual os negros brasileiros se apaixonaram, inclusive a mãe e o pai de MV Bill que se conheceram no baile de soul que rolava no antigo orfanato na praça principal da Cidade de Deus. Lugar que ficou conhecido através do filme que contava através de uma ficção, um pouco dessa história. Hoje no local está situado o CIEP João Batista - nome de um grande líder político local.

A onda era dançar igual aos negros americanos, deixar o cabelo redondinho com aqueles garfos de arame, o balanço gostoso, os concursos de dança, os cumprimentos... As mulheres do soul deixaram de alisar o cabelo, os negros se achavam bonitos e tudo através da música e da dança. No clube, hoje Associação de Moradores, aos sábados os sambas canções embalavam casais no salão. Aos domingos era soul. O soul do movimento black power. Mas foi na época dos blacks e dos cocotas, neo-hippes favelados que ouviam rock e pegavam jacaré, que a guerra entre Mané Galinha e Zé Pequeno na Cidade de Deus começou e ganhou corpo.

MV Bill tinha quatro anos de idade. A guerra foi derramando sangue nas ruas e lugares de sua infância, esburacando a parede de seu prédio, matando seus amigos. Fez Adauto Corcundinha deixar de trabalhar para ter desfile dos blocos e da escola de samba na praça no carnaval, espantou o forró do Severino e sua gente, fez as diretoras dos colégios suspenderem as aulas, obrigou os dançarinos a andar por outras gafieiras, acabou com o movimento black e arrebanhou a maior parte dos cocotas. Foi uma fase muito triste, porém agora o movimento hip-hop, que reúne break, rap e grafite, debate questões raciais, sociais e políticas, está tendo espaço em comunidades em todo Brasil.

Foi nesse ambiente que MV Bill cresceu e isso é amplamente retratado em sua música. MV Bill prega a paz e traz em sua argumentação outras coisas que não sejam a infelicidade da guerra, das drogas, da polícia, da miséria... As letras apostam que a leitura, a consciência política e a solidariedade, que tanto falaram que a gente tem, se transformem em uma força organizada para combater os maus-tratos que a sociedade brasileira dá aos seus negros e pobres.

"Os hip hoppers têm vontade que a vida seja melhor e é por isso que o movimento no Brasil já tirou muito jovem do crime, fez com que outros largassem as drogas e evitou que muita gente entrasse para a bandidagem... a miséria não pode ser vista como um destino a ser cumprido."

A tomada de consciência, que tanto falaram, vem através de um estilo musical que é uma adaptação do canto falado da África Ocidental à música dos jamaicanos. Nos anos cinqüenta se encontrou com a dança que vinha dos guetos americanos no período pós-guerra do Vietnã. MV Bill já fez samba de partido-alto, gosta de Forró, de samba-rock, já defendeu samba-enredo de seu pai (o lendário Mano Juca) na quadra de samba do Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco Coroado de Jacarepaguá. Entretanto foi ao Rap que ele se apegou e deu ao estilo uma cara brasileira, inovando unindo o rap ao classico através de violinos e instrumentos de sopro e a ginga brasileira da percussão e viola fazendo o rap nacional ser reconhecido no mundo inteiro.

MV Bill vem freqüentando as manchetes dos jornais desde 1998, quando lançou seu primeiro disco, CDD Mandando Fechado, revelando os graves problemas sociais do bairro onde nasceu, cresceu e mora até hoje. Durante o Free Jazz Festival, MV foi alvo da imprensa pois se apresentou com uma arma na cintura, na música Soldado do Morro. Katia Lund, co-diretora do filme Cidade de Deus, dirigiu o primeiro clip de MV Bill chamado Traficando Informação e que concorreu no VMB da MTV nas categorias de melhor clip de rap e melhor direção.

Em 2000 o seu clip Soldado do Morro foi proibido pela polícia carioca antes mesmo do seu lançamento nacional. A polícia abriu um inquérito para investigar uma suposta apologia ao crime organizado no videoclipe do rapper.

Bill apresentou o clipe no dia 25 de dezembro de 2000, em um show na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. O clipe foi proibido logo depois da primeira exibição. Soldado do Morro, que teve como paisagem várias favelas cariocas, exibe imagens de traficantes armados de verdade e crianças trabalhando no tráfico drogas. O videoclipe foi vetado pela polícia carioca e proibido em todas as emissoras de TV do Brasil. Bill tinha apenas a “intenção de mostrar a realidade que está escondida no nosso dia-a-dia. Muitos têm interesse em que ela permaneça desse jeito, os mesmos que pregam a paz e acabam financiando a guerra”.

Quando o filme Cidade de Deus começou a fazer sucesso, comprou mais briga dizendo que a comunidade em nada se beneficiaria, apenas os produtores do filme. Em 2002 foi a vez do lançamento do álbum Declaração de Guerra e da divulgação do clip Só Deus pode me julgar. Este clip mostra o parto natural de um bebê negro do começo ao fim. Desde a hora em que a mãe entra na sala de parto, é examinada pelo médico (o chamado exame de toque, sem cortes), em seguida vem o trabalho de parto, até o nascimento do bebê. A princípio choca, mas assistindo mais de uma vez tudo chega a ser bastante natural por ser o nascimento de um bebê. Todo o procedimento do nascimento vem intercalado com imagens de Brasília, do Senado, drogas, tráfico. Só Deus Pode Me Julgar concorreu ao Video Music Brasil (VMB/MTV) com três indicações: melhor clipe de rap, melhor clipe do ano e melhor edição.

Outra polêmica envolvendo MV Bill foi em relação ao documentário Falcão, os meninos do tráfico, dirigido por Bill e seu produtor Celso Athayde. O documentário seria exibido no aniversário de 30 anos do programa Fantástico da Rede Globo, entretanto na véspera da exibição a autorização foi cancelada apesar de toda a mídia envolvida. Diversas versões do porquê de a exibição não ter acontecido foram divulgadas, entretanto MV Bill explica que o motivo da suspensão foi a vontade de esperar "um momento mais adequado" para mostrar como vivem os jovens que trabalham no tráfico de drogas no Brasil. “Achei que as pessoas estavam recebendo este documentário de maneira errada”. Bill fez questão de ressaltar que não houve problema com a emissora.

Durante a pesquisa para o documentário visitaram várias capitais e lá visitavam as comunidades. “Em Belém, por exemplo, os jovens do tráfico trabalham com facões. Então, percebemos que muda o material bélico, muda a linguagem e mudam as drogas. Mas a realidade do jovem é sempre a mesma” disse Bill. No documentário, 16 jovens foram entrevistados. Destes, 15 morreram. “A gente filmava a vida deles, ouvia os garotos falando de sonhos, de futuro. E depois a gente acabava voltando lá para filmar o sepultamento deles, porque a própria família ligava para contar que eles tinham morrido.”

Deixando de lado as polêmicas devido a interpretação equivocada de seu trabalho, MV Bill já teve seu trabalho reconhecido no mundo inteiro, já tendo inclusive recebido vários prêmios por sua atuação no movimento hip-hop, como o destaque do ano da Unicef em 2004 e, em 2003, como um dos rappers mais politizados dos últimos dez anos, prêmio também concedido pela Unicef. No Fórum Mundial das Culturas, em Barcelona, em 2003, recebeu das Nações Unidas um documento que o consagrou, junto a artistas de vários países, como Cidadão do Mundo.

Atualmente MV Bill trabalha na produção de seu próximo cd e na divulgação do livro Cabeça de Porco. O livro é o resultado de um trabalho em duas fontes: entrevistas e filmagens feitas por MV Bill e seu empresário Celso Athayde nos últimos 15 anos em favelas de nove estados brasileiros sobre crianças e jovens que vivem no mundo do crime, suas razões e a dimensão humana de suas vidas. A esta pesquisa original, relatada com a emoção de quem assistiu de perto à situações perigosas, se associam os textos do antropólogo Luiz Eduardo Soares – um conjunto de registros etnográficos apurados ao longo dos últimos sete anos, sobre juventude, violência e polícia.

Os dois projetos se encontraram porque os valores e a interpretação dos problemas eram convergentes, e os três autores decidiram completar suas respectivas tarefas com um conjunto de entrevistas qualitativas realizadas em 2003 pelos professores Hélio Raimundo Santos Silva e Miriam Guindani.

Celso e MV Bill sintetizaram toda a carga de informações sociais e culturais acumulada por sua pesquisa em narrativas que preferiram escrever em primeira pessoa, para enriquecer suas descrições com os sentimentos vividos e as interpretações que as experiências suscitaram. Em diálogo permanente com os co-autores, Luiz Eduardo teceu a rede dos textos, procurando combinar interpretações com retratos os mais fiéis possíveis de cenas vividas por um sem-número de personagens, todos verdadeiros, imersos em situações reais – ainda que sob nomes fictícios e em cenários ligeiramente alterados para lhes resguardar as identidades, como determina a ética de toda pesquisa social. Em alguns casos, não se furtou a reconhecer que era ele mesmo o protagonista. Tomou sua passagem por governos como oportunidades para observação e registro de episódios reveladores do funcionamento subjetivo e social da violência e da insegurança pública.

O propósito do livro é traçar um painel realista sobre a violência instalada no Brasil. A intenção não é denunciar. É compartilhar preocupações e reflexões, na perspectiva de manter viva a esperança. O livro está entre os mais vendidos no Brasil e tem tido grande repercussão em toda sociedade brasileira, seja nos principais veículos de comunicação que em função do livro abriram espaço para esta discussão, entre jovens que vivem esta realidade ou entre acadêmicos que apostam que o livro pode ajudar a encontrar soluções para os problemas que atingem a juventude marginalizada. Com certeza, um livro não vai mudar a realidade de milhões de jovens brasileiros, mas MV Bill está certamente fazendo a sua parte, servindo de modelo para aqueles jovens que nunca acreditaram que fosse possível um jovem preto e favelado chegar onde MV Bill chegou. Exemplo para os jovens das comunidades pobres e também para a elite rica que com a violência batendo em sua porta vê-se obrigada a ouvir a voz que vem do morro. MV Bill, o mensageiro da verdade, sabe disso e através de suas palavras vem mudando a vida de muitas pessoas, seja no morro ou no asfalto.

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