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por
Marlene Peret
Trandução: Luis Gonzaga Fragoso |
Chega
pela primeira vez em Londres o show Pietá,
último trabalho em CD do cantor e compositor
brasileiro Milton Nascimento. Com passagem pela Europa
pela quarta vez, a turnê foi aplaudida pela
crítica e pelo público em várias
partes do mundo. A estréia acontecerá
em 23 de abril, em Paris, e o encerramento em 15 de
maio, em Helsinki. |
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A
começar pelo título, o disco é um presente
à alma feminina, com homenagens a todas as cantoras
que o inspiraram ao longo de sua carreira. Para Milton,
Pietá é sua mãe de criação
Lília, a quem ele deve tudo o que é. Foi através
dela que ele conheceu no rádio estrelas como Sarah
Vaughan, Ella Fitzgerald, Billie Holliday e principalmente
Ângela Maria.
A
afinidade do cantor com as mulheres já vem de longa
data. Foi pelas mãos de Elis Regina que ele obteve
a sua primeira gravação com a música
“Canção do Sal” em 1966. Quase
quatro décadas depois, em retribuição
a sua grande madrinha artística, Milton revela Maria
Rita Mariano – filha da legendária cantora
com o músico César Camargo Mariano. Em Pietá,
Maria Rita canta “Tristesse”, eleita a melhor
canção brasileira no Grammy Latino de 2004,
e “Voa Bicho”.
Entre
as variadas surpresas do disco estão duas belas
intérpretes praticamente desconhecidas do público
em geral. Simone Guimarães canta “Beleza
e Canção” e “Boa Noite”
e Marina Machado, “Casa Aberta” e “Imagem
e Semelhança”. Em 2002, Marina também
foi premiada como a melhor cantora de Minas Gerais
pelo Troféu Pró-música. |
Casa da família de Milton Nascimento em Três
Pontas
Foto por Marlene Peret |
Não
faltam nesse trabalho a participação de estrelas
internacionais. A faixa “Cantaloupe Island”
traz Pat Metheny no violão solo e Herbie Hancock
no piano. Já em “Beira-mar Novo”, o interior
do Brasil novamente se faz presente com o Grupo Teatral
Ponto de Partida e os Meninos do Araçuaí,
que nada mais é do que um coro afinadíssimo
do projeto Ser Criança do Vale do Jequitinhonha de
Minas Gerais. Essa ONG trabalha com a reintegração
de crianças e adolescentes usando a cultura como
instrumento de desenvolvimento.
Quem
assina os arranjos e a regência de cordas é
o velho amigo e parceiro Eumir Deodato que figurou no início
da carreira de Milton como principal responsável
pelo lançamento do disco Courage no mercado americano.
Ao
lado de Marina Machado e de uma banda extremamente competente,
Milton Nascimento apresenta o show Pietá ao público
de Londres no The Forum, em 28 de abril, às 19h.
Confiram,
é imperdível !!!
De Minas para o mundo
Milton
Nascimento nasceu no Rio de Janeiro mas foi levado
para Três Pontas, interior de Minas Gerais,
quando tinha dois anos de idade. Quem o acolheu
foi o casal Dona Lília e Seu Zino. Já
com essa idade, Milton se postava com as pontinhas
do pés para alcançar o piano de sua
mãe. E de tanto ouvir Dona Lília cantar,
Milton aprendeu a tocar sua pequena sanfona para
acompanhá-la.
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Fã
Clube oficial de Milton Nascimento (inclui oficina
do pai dele - Eletrônica Zino)
Foto por Marlene Peret |
Com
o passar do tempo, Bituca, como é chamado pela família
e pelos amigos, se tornou um músico praticamente
autodidata que adorava tocar violão ao lado de um
fogão à lenha no fundo do quintal de sua casa.
O apelido Bituca se deve aos bicos que ele fazia quando
ficava chateado por alguma coisa que o desagradasse.
Ao
som do barulho da maria fumaça que existia na cidade,
o pequeno garoto começou a aprender o que era de
fato a harmonia e a simplicidade de Minas Gerais, que mais
à frente se revelaria tão presente em seus
trabalhos musicais. Como pessoa, Milton também é
simples e faz questão de preservar isso, mesmo diante
de tanta fama. Seus olhos calmos e serenos revelam a pureza
e a limpidez de sua alma. Quem o conhece sabe que ele carrega
junto de si uma grande entidade do bem.
Ainda
quando menino, Milton adorava subir nos morros da
cidade para escutar sua voz eclodindo pelas montanhas.
Hoje, Milton ecoa sua voz como um mantra sagrado
das montanhas para o mundo e não somente
para a pequena cidade de Três Pontas.
Mais
tarde, com o amigo Wagner Tiso, também de
Três Pontas, Bituca botou o pé na estrada
para tocar em bailes pelo interior de Minas Gerais.
Depois, acabou se mudando para Belo Horizonte, onde
trabalhou como escriturário.
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Detalhe
da placa (Homenagem ao cantor e compositor Milton
Nascimento)
Foto por Marlene Peret
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Em
1967, Milton participou do II Festival da Canção
do Rio Janeiro e se classificou em segundo lugar com a música
“Travessia”. A partir daí, o cantor mineiro
se transformou em um músico sem fronteiras. Ele gravou
com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter, Sarah Vaughan,
Peter Gabriel, Jon Anderson, Pat Metheny e James Taylor.
Milton costuma dizer: “Minas me deve muito porque
eu comecei a empurrar o pessoal a aparecer”. De fato
ele tem razão, porque se o Rio deu a Bossa Nova e
a Bahia a Tropicália, Minas deu o movimento mineiro
intitulado Clube da Esquina. Com Fernando Brant, Márcio
Borges, Lô Borges, Beto Guedes e tantos outros, Milton
construiu, a partir de 1972, uma série de trabalhos
de tamanha grandeza poética e harmônica que
dificilmente será editada novamente nas Gerais.
Em
verdadeiras obras antológicas, Milton trabalhou
como nunca as questões brasileiras. Basta
conferir o resultado de alguns discos como “Missa
do Quilombos”, que fala do negro e de sua
religiosidade, “Txai”, que retrata os
índios e “Tambores de Minas”,
um exímio trabalho de divulgação
do reisado e suas várias manifestações
folclóricas.
Premiado
em diversos lugares do mundo, Milton conseguiu o
seu maior troféu com o disco Nascimento,
o Grammy de 1997 na categoria World Music.
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Antiga
casa de Wagner Tiso, hoje Conservatório Heitor
Villa-Lobos . Todas as três situam-se na Praça
Travessia, em Três Pontas (uma vizinha da outra).
Ordem das casas na rua: Casa do Wagner (à esquerda)
, Casa do Milton (ao centro) , F
ã Clube do Milton (à direita)
Foto por Marlene Peret |
Atualmente,
Nascimento não é só sobrenome ou título
de disco, mas também o novo selo do cantor, que tem
a parceria da EMI. Os primeiros lançamentos da sua
mais nova grife foram o CD duplo “Maria Maria/Último
Trem” e o belíssimo e surreal título
em DVD “A Sede do Peixe”. Ambos saíram
em setembro de 2004. O próximo projeto a ser divulgado
pelo empresário Milton Nascimento é o CD de
Marina Machado. Com lançamento previsto para o final
do ano, ele também prepara o seu novo DVD –
um trabalho que revela a volta de Milton a Três Pontas
num encontro feliz com dezoito artistas jovens da cidade.
Com a participação especial de Lenine, as
primeiras gravações já foram realizadas.
Agora é só esperar o resultado.
Por
Marlene Peret, em 19 de abril de 2005