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UMA VERDADEIRA ALDEIA GLOBAL:
ÍNDIOS NO BRASIL, ÍNDIOS NA NOVELA
Prof. MsC. e Doutorando Giovani José da Silva*
Universidade Federal de Goiás – UFG


Existem hoje em nosso país cerca de 220 grupos indígenas, distribuídos em todo o território nacional, com exceção dos Estados do Piauí e do Rio Grande do Norte. Em conjunto, os indígenas brasileiros perfazem um contingente populacional de mais de 700.000 indivíduos. Embora sejam a expressão viva da rica sociodiversidade brasileira, infelizmente, pouco se conhece ainda sobre os povos indígenas que habitam o Brasil. Uma parte já não fala mais o idioma indígena, utilizando-se do Português em seu cotidiano, mas cerca de 180 línguas indígenas diferentes ainda são faladas atualmente.

 

 

Giovani apresentando seu workshop

Por essa razão, a imagem estereotipada do índio que fala Tupi-Guarani, que mora em ocas, adora o sol e a lua, dorme em redes, etc. se encontra desgastada e pouco serve para explicar como vivem os Atikum, Baniwa, Kaingang, Paresi, Xakriabá e tantos outros povos indígenas que possuem costumes tão diversos e ao mesmo tempo são identificados pela população envolvente como “índios”. Nesse aspecto, o trabalho realizado na novela Alma Gêmea é digno de nota por apresentar, na televisão brasileira, uma caracterização bastante verossímil de como viviam os índios na primeira metade do século XX. A fonte inspiradora para essa caracterização foi a sociedade Kadiwéu, habitante da região do Pantanal Sul-mato-grossense e conhecida no passado como o grupo dos “índios cavaleiros”. Sobre esses índios há uma extensa bibliografia e estudos de diversos viajantes e antropólogos que conviveram entre os mesmos nos últimos séculos.

Os Kadiwéu falam uma língua da família lingüística Guaikuru e apresentam características bastante peculiares em relação a outros povos indígenas. Formam uma sociedade estratificada, dividida entre “nobres” e “cativos”. A língua falada por eles apresenta uma variação de gênero, ou seja, diferenças entre a fala masculina e a fala feminina. Além disso, possuem habilidades com a criação de gado bovino e eqüino e as mulheres são ceramistas por excelência. Tradicionalmente, viviam da caça e da coleta. Hoje consomem, também, produtos industrializados.

Giovani, André (colaborador do autor da novela), Carlos Eduardo (da FGV) e Jorge Fernando (dir.geral de Alma Gêmea).

Desde o início do século XX, possuem um território demarcado, a atual Reserva Indígena Kadiwéu, localizada no município de Porto Murtinho, Estado de Mato Grosso do Sul. Com uma extensão de aproximadamente 538.536 hectares, a Reserva é a maior área indígena do Centro-sul brasileiro e durante o século XX foi alvo da cobiça de fazendeiros que tentaram exterminar os Kadiwéu. Dados demográficos mostram que no final do século XIX os Kadiwéu não ultrapassavam 200 pessoas. Na metade do século XX, Darcy Ribeiro registrou apenas 235 indivíduos. Há pouco mais de cinco anos um Censo realizado nas cinco aldeias da Reserva contabilizou cerca de 1.300 indígenas Kadiwéu.

Como tantos outros povos indígenas brasileiros, os Kadiwéu são vítimas da discriminação e do preconceito por parte da sociedade não-indígena. Há uma idéia generalizada de que os índios são preguiçosos, indolentes, bêbados ou ainda de que deveriam viver como se vivia há cinco séculos atrás. Claro que os povos indígenas enfrentam problemas com alcoolismo, suicídios, etc. e muitos já perderam características tradicionais de sua cultura. Entretanto, tudo isso deve ser entendido no contexto de um contato, na maior parte das vezes desastroso, que os grupos tiveram com os não-índios.

Conhecer com mais profundidade a pluralidade social e cultural apresentada pelos mais de 200 povos indígenas garante a criação de uma rede de informação e colaboração para que os índios possam continuar existindo, reproduzindo-se física e culturalmente de acordo com as características de cada grupo. Ao mostrar a trajetória inicial de Ewiidi (Serena, a personagem de Priscila Fantin), em uma aldeia inspirada nos Kadiwéu, com a Festa da Moça, as danças, as pinturas faciais e corporais, as casas (diimigi e não ocas!), as vestimentas (chiripá e não tangas!), ritual de cura, escola para índios, toda a equipe de Alma Gêmea e a Rede Globo acertam.

Giovani com a atriz Pricila Fantin no início das gravações da novela Alma Gêmea, na Aldeia Camorim, próximo ao Projac, nos estúdios da Rede Globo.
© André Luis Fernandes

Embora se trate de uma ficção, muito daquilo que o público irá ver a partir de junho na tela da televisão é bastante próximo da realidade vivida por esses índios em um passado próximo. Muitos dos costumes apresentados, dos gestos, do comportamento, do olhar, foram minuciosamente estudados para serem reproduzidos. O linguajar Kadiwéu, inicialmente difícil para os não-falantes, foi treinado e diversas (e diversas!) vezes repassado pelos atores e atrizes. A aldeia montada no Camorim e os ambientes criados em Carrancas, Minas Gerais e em Bonito, Mato Grosso do Sul, são realmente bem-feitos, mas, sobretudo, críveis.

Tudo isso me torna orgulhoso de ter podido participar dessa experiência profissional única junto aos diretores, assistentes, técnicos, elenco, enfim, a todos que participaram do início da trama. Sei que toda essa jornada provocou reações de encantamento e estranhamento entre os próprios envolvidos nas gravações (cadê os índios que nós conhecíamos dos manuais escolares?).

Giovani com seus alunos Kadiwéu em sala de aula

Meu desejo sincero é que essas reações se estendam ao público que irá acompanhar Alma Gêmea a partir do próximo mês. Que muitos estranhem a ausência das penas, de cocares, das tangas, do “índio Touro Sentado” e de tantas outras caricaturas que se fazem dos índios brasileiros e se encantem com a beleza de uma cultura ancestral que faz parte da história do nosso país.

Afinal, já está na hora de percebermos que os índios não são melhores e nem piores do que nós, apenas diferentes, e com eles podemos aprender muito, inclusive, sobre nós mesmos!

* Giovani José da Silva, 33 anos, paulista e paulistano, mora atualmente em Goiânia, Goiás, onde realiza estudos de Pós-Graduação (Doutorado) em História na Universidade Federal de Goiás (UFG), sob a orientação da antropóloga Joana Fernandes. Há quinze anos realiza estudos de campo entre sociedades indígenas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, na região do Pantanal. Foi vencedor do Prêmio Victor Civita 2001 - Professor Nota 10 (Melhor Professor da Escola Pública do Brasil), II Prêmio Mostra PUC-Rio/ Petrobrás - Categoria Ciências Sociais 2002, III Prêmio Mostra PUC-Rio - Categoria Teologia e Ciências Humanas 2003 e 2º Prêmio Educar para a Igualdade Racial - Categoria Ensino Médio 2004. Atualmente é consultor da Rede Globo de Televisão e prepara um livro, juntamente com a jornalista Roberta Bencini, sobre suas aventuras no Pantanal entre os índios. OYATOGOTELOCO (EM LÍNGUA KADIWÉU MEU NOME SIGNIFICA “A LUZ QUE BRILHA LONGE”)

Endereço eletrônico para contato:
giovanijosedasilva@ig.com.br

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